Um admirável perfil de uma personalidade e de uma época no drama Hannah Arendt.

30 . agosto . 2013

As ideias ousadas de Hannah Arendt sobre o nazismo são o fio condutor do novo filme de Margarethe Von Trotta. A diretora, conhecida por criar retratos de mulheres fortes, retorna ao tema para contar a história da imigrante judia que, após cobrir o julgamento do oficial da S.S. Adolf Eichmann, causou furor na comunidade judaica americana ao não defender cegamente o enforcamento do acusado.

A cinebiografia da escritora não parece, a princípio, ser capaz de render material suficiente para um longa-metragem, afinal os conceitos defendidos por ela são interessantes, mas era preciso transformá-los em ideias atrativas para os espectadores. Essa difícil tarefa foi enfrentada também por O Mestre e, tanto o drama de Paul Thomas Anderson sobre a Cientologia, quanto Hannah Arendt, conseguem atingir esse objetivo com sucesso, graças às grandes atuações dos protagonistas; neste caso Barbara Sokuwa.

O filme mostra como a pensadora, já famosa nos anos 1960 após a publicação do livro As Origens do Totalitarismo, chega ao conceito da Banalidade do Mal. Na teoria, a prática de maldades por certos indivíduos acontece sem consciência, desde que as ordens venham de níveis superiores.

O conceito de pessoas agindo de acordo com regras do sistema ao qual pertencem sem racionalizar seus atos foi criado a partir do nazismo, mas continua atual. É possível traçar paralelos com a Guerra ao Terror, travada pelos Estados Unidos contra extremistas islâmicos, a situação na Palestina e, em menor escala, claro, até com o que aconteceu no Brasil recentemente durante a violenta repressão às manifestações de junho de 2013.

Embora a discussão levantada seja interessante e renda bons diálogos, o ritmo lento, principalmente em seu início, pode não agradar a todos. A narrativa constrói vagarosamente a protagonista, desenvolve as relações interpessoais e posicionamento político antes de seguir a Israel para o julgamento. A cineasta procura ancorar as ideologias e lealdades da personagem antes de colocá-la no furacão que segue a publicação de seu artigo na revista New Yorker.

O ponto de vista de Hannah é reforçado com o uso de imagens reais do julgamento. Esses recortes escolhidos a dedo pela diretora mostram Adolf Eichmann não como o monstro que todos julgavam ser, mas como um homem normal, um burocrata incapaz de usar a consciência para medir seus atos.

A falha da obra está na apresentação de flashbacks sobre o romance da teórica com o filósofo Martin Heidegger (Klaus Pohl), simpatizante nazista e grande dilema moral da vida de Arendt. Essas cenas não acrescentam nada à trama e parecem perdidas na narrativa. Se esse recurso fosse melhor utilizado, poderia servir como contraponto para o discurso apresentado no restante do filme.

Outro problema é a forma superficial como algumas figuras literárias históricas são representadas. Embora os diálogos sejam bons, certas atitudes nem sempre fazem sentido e alguns personagens ganham traços caricatos, principalmente quando se mostram extremistas tanto no apoio ou condenação de Hannah.

Apesar desses problemas, a produção faz bom trabalho ao desvendar a vida dessa importante figura do século XX. O longa procura promover a discussão sobre ideologias e cria ótimas cenas inflamadas sobre o assunto. Entretanto, alguns espectadores podem ficar incomodados com a forma como alguns pontos são abordados, afinal a cineasta tem posição clara a respeito das teorias e deixa pouco espaço para interpretações diferentes.

por Daniel Reininger, para CineClick*


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