'O Dia que Durou 21 Anos' mostra ação dos EUA no golpe militar de 1964.

29 . marÇo . 2013

Documentário "O Dia que Durou 21 Anos" terá sessão especial, seguida de debate, no dia 03 de abril. Foto: Pequi Filmes (Divulgação)

Por Patrícia Britto, da Folha de São Paulo.

Diálogos do presidente dos Estados Unidos revelados em gravações da Casa Branca, uma frota naval com um porta-aviões e navios torpedeiros parte da costa norte-americana em direção ao Brasil e um plano de contingência prevê detalhes de um golpe de Estado no maior país da América Latina.

Essas cenas não são de um filme de ficção. Elas estão no documentário brasileiro "O Dia que Durou 21 Anos", que estreia hoje nos cinemas -- às vésperas do aniversário de 49 anos do golpe militar de 1964.

Com direção de Camilo Tavares, o filme destaca o papel dos Estados Unidos para a criação de um ambiente que resultaria no golpe para derrubar o presidente João Goulart, dando início aos 21 anos da ditadura militar no Brasil.

A origem da pesquisa para o filme coincide com a busca pela origem de sua própria história, diz Camilo, que nasceu no México, onde seus pais viviam exilados, em 1971, no auge da ditadura militar.

Camilo é filho de Flávio Tavares, um dos 15 presos políticos libertados em troca do embaixador norte-americano sequestrado, Charles Elbrick.

"Queria entender por que sequestraram um americano. A gente tem pouca noção de quanto os Estados Unidos interferiram [no golpe]. Então o filme foi uma busca por essa resposta", disse à Folha.

Resultado de uma pesquisa que durou mais de três anos, o documentário usa como fonte gravações de diálogos da Casa Branca de 1962 a 1964, recentemente tornadas públicas.

Entre elas, uma de junho de 1962 em que "o embaixador dos EUA no Brasil Lincoln Gordon expõe ao então presidente John F. Kennedy a necessidade de uma infiltração nas Forças Armadas brasileiras", conta Flávio Tavares, pai de Camilo e que também participou da produção.

Telegramas do Departamento de Estado dos EUA e arquivos de ex-presidentes norte-americanos também são usados como fontes e revelam "ordens expressas para uma infiltração nas Forças Armadas brasileiras", diz Flávio.

Segundo relatos no filme, a interferência seria consolidada pelo embaixador Gordon e pelo general Vernon Walters, adido militar dos EUA no Brasil de 1962 a 1967.

Os documentos detalham a operação Brother Sam, deflagrada em 31 de março de 1964 e que consistia em uma frota naval vinda dos EUA em direção ao Brasil --que invadiria o país caso não fosse bem sucedida a derrubada do presidente João Goulart.

O apoio logístico da Marinha dos EUA contava com porta-aviões, navios petroleiros, torpedeiros, aviões-caça e munição. Com a confirmação do golpe, a operação foi desativada, quando se encontrava no mar do Caribe.

O filme traz ainda detalhes de um plano de contingência que previa as etapas do golpe. Entre elas, um Estado deveria se declarar contra o governo de Jango, como fez Minas Gerais, e os EUA deveriam reconhecer um presidente constitucional antes de um militar, como ocorreu com o então presidente da Câmara, deputado Ranieri Mazzilli.

"Foi chocante encontrar esse plano, porque ele previu exatamente o que aconteceu", disse o historiador Carlos Fico, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), um dos entrevistados no filme de Camilo Tavares.

_SESSÃO ESPECIAL COM DEBATE no dia 03 de abril às 20h20
O Cine Cultura e a Associação dos Amigos do Cinema e da Cultura convidam para a sessão seguida de debate, em razão do registro da passagem de 49 anos do Golpe Militar de 1964.
Debatedores: Hamilton Pereira - Secretário de Cultura do DF e Dep. Distrital Arlete Sampaio.
Mediação: Jacques Pena