Nós ou nada em Paris

01 . julho . 2016

Revelado ao público francês no programa cômico Jamel Comedy Club e na minissérie Bref, ambos no Canal+, o rapper e comediante stand up franco-iraniano Kheiron estreia na direção de longas com a comédia dramática Nós ou Nada em Paris.
 
O filme, que foi indicado ao César de melhor trabalho de estreante, inspira-se nas memórias dos pais do ator, os iranianos Hibat e Fereshteh, exilados na França depois de terem atuado na oposição tanto ao regime do xá Reza Pahlevi quanto ao seu substituto, o aiatolá Ruhollah Khomeini.
 
Hibat (interpretado pelo próprio Kheiron) é um jovem advogado e ativista contra a ditadura de Pahlevi (Alexandre Astier), o que lhe custa sete anos de prisão. Embora o filme não evite mostrar a vida dura dos prisioneiros, submetidos a espancamentos, torturas e solitária, o diretor consegue infiltrar humor em diversas situações, envolvendo as manias e também a solidariedade entre os detentos.
 
Saído da prisão, Hibat conhece Fereshteh (Leila Bekhti, de O Profeta), uma jovem independente e decidida. Apaixonam-se, mas ele tem que dobrar a resistência do pai dela (Gérard Darmon), especialmente por seu passado na cadeia e sua situação profissional instável.
 
Kheiron é especialmente hábil em retratar estas situações familiares, em que sobressai a posição firme de mulheres como Fereshteh e sua mãe (Zabou Breitman), numa sociedade mostrada como bastante plural e adepta de figurino ocidentalizado, em meados dos anos 1970.
 
O casamento e a queda do regime do xá animam o jovem casal. Mas a alegria dura pouco já que o novo dirigente, o aiatolá Khomeini – que aparece em noticiários reais da época – logo deixa claro que seu objetivo maior não é a democracia, mas a implantação de um Estado Islâmico.
 
Na iminência de uma nova prisão, Hibat decide fugir do país. A mulher, que já tem um bebê, recusa-se a deixá-lo ir sozinho. E dá um ultimato – ou vão todos ou ninguém vai.
 
Então, começa uma nova e dura fase na vida da família, compreendendo uma arriscada fuga pelas montanhas, rumo à Turquia, e depois, o exílio em Paris. Morando numa periferia da capital – Stans, em Seine-Saint Denis -, a família se envolve num outro tipo de ativismo, que inclui a integração de jovens filhos de imigrantes de vários lugares, divididos pela dificuldade de inserção, o preconceito, o racismo e o flerte com a marginalidade.
O diretor de primeira viagem mostra-se eficiente ao entrelaçar os aspectos pessoais e políticos de forma simples e direta. Apesar de tocar em temas pesados em algumas passagens, consegue infiltrar toques de humor em todos os segmentos.
 
Devido à sua proximidade pessoal com a história, Kheiron garante que a emoção flua intacta, mas nem sempre com eficiência narrativa suficiente para desviar-se de alguns clichês, simplificações e eventualmente caricaturas. No todo, a história é realmente vibrante e com potencial de comunicação com o público.

 


Neusa Barbosa*
*As opiniões expressas são de responsabilidade da autora.