Na corrida por Oscar, "Infância Clandestina" remonta memória infantil em ditadura argentina

21 . dezembro . 2012

As memórias de ditaduras militares, vistas pelo olhar de uma criança, foram objetos de filmes recentes como o brasileiro "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" (2006), de Cao Hamburger, o argentino "Kamchatka" (2002), de Marcelo Piñeyro, e do chileno "Machuca" (2004), de Andrés Wood.

Por coincidência, todos foram indicados para representar seus países em indicações para o Oscar de filme estrangeiro, situação que se repete este ano com "Infância Clandestina", que vai concorrer pela Argentina.

O filme acaba de vencer a premiação da Academia Argentina, conquistando dez troféus -- inclundo melhor filme e direção. Dois brasileiros também foram agraciados: Marcelo Müller, corroteirista, e Gustavo Giani, montador.

Se o tema não é novo, "Infância Clandestina" apresenta como diferencial um vigor particular na reconstituição do cotidiano de uma família.

Com 12 anos, Juan (Teo Gutierrez Romero) vive ao lado dos pais Horácio (César Troncoso) e Cristina (Natalia Oreiro), um casal de Montoneros que retorna à Argentina em 1979, ano em que o grupo armado peronista inicia uma grande contra-ofensiva para derrubar a ditadura instalada três anos antes. Completa a família o bebê Vicky, garotinha com menos de um ano.

Uma rotina nervosa pesa sobre o clã, que se instala numa cidade pequena. O grupo vivie unido a Beto (Ernesto Alterio), irmão de Horácio, sob a fachada de um comércio de chocolates. Juan vai à escola local, mas antes tem de decorar uma nova história pessoal, que inclui um nome falso: Ernesto, uma homenagem ao Che Guevara.

O cotidiano é tenso, regido por normas de segurança que incluem vendar os visitantes, que entram na casa ocultos sob as caixas de chocolate numa caminhonete. As reuniões do grupo são realizadas a portas e janelas fechadas, sob a atenta observação de Juan, que se torna os olhos e ouvidos da plateia.

Mesmo militantes apaixonados, os pais e o tio nunca descuidam das funções afetivas, compondo o retrato de uma família intensamente próxima que será completada por uma imprevista visita da avó Amália (Cristina Banegas). A senhora se torna a voz de questionamento àquele modo de vida, insistindo em levar as crianças com ela, sem êxito. Os pais não abrem mão de criar os filhos, mesmo no imenso perigo que todos correm.

O filme ganha força não só por conta da moldura política forte, como também por delinear com despojamento as emoções do primeiro amor para Juan -- tudo com grande autenticidade e humor.

O contraste entre as calorosas cenas familiares e a paixão de Juan por María (Violeta Palukas) e a angústia de seguidos tiroteios retratam a esquizofrenia da infância do protagonista, forçado a crescer rápido demais. Funcionam muito bem as sequências de animação de Andy Rivas, criando um clima de pesadelo para algumas das situações mais violentas.

O diretor estreante, que é corroteirista ao lado de Marcelo Müller, sabe do que está falando -- a história baseia-se em parte de suas próprias memórias de infância. Filho de uma mulher que foi companheira de um líder Montonero morto, Ávila dedica o filme à mãe, que foi capturada e figura até hoje na lista dos milhares de desaparecidos argentinos.

O cineasta teve mais sorte ao localizar um meio-irmão -- levado pelos agentes da repressão que prenderam a mãe de Ávila aos 9 meses de idade. O diretor o reencontrou aos 5 anos por meio da organização das Avós da Praça de Maio.

Por Neusa Barbosa, do Cineweb*

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