‘Moonlight’, o filme que pode evitar que ‘La La Land’ leve tudo no Oscar 2017

23 . fevereiro . 2017

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Quando o diretor Barry Jenkins mandou o roteiro de 
Moonlight (Moonlight: Sob a Luz do Luar) para Naomie Harris, a atriz de James Bond sentiu que deveria dizer não. “Não queria interpretar um estereótipo, já há muitas mulheres viciadas em crack no cinema e não queria ser mais uma”, explica. “Meu objetivo sempre foi representar mulheres fortes e especialmente mulheres negras fortes que tragam algo positivo.”

Mas Jenkins insistiu. “Ele me disse que a história era autobiográfica e que não queria que eu interpretasse um estereótipo, mas precisava contar sua história e tinha crescido com uma mãe viciada em crack”, confessa a atriz. “Basicamente, ele estava pedindo que eu interpretasse a mãe dele e eu não pude recusar. Percebi que estava prejulgando o filme”.

Tais preconceitos em relação ao filme são aqueles que provavelmente qualquer um teria ao ler a sinopse de Moonlight. Baseada na peça de teatro Moonlight Black Boys Look Blue, é a história de seu autor, Tarell Alvin McCraney, e de Jenkins, que também assina o roteiro. “Cresci a um quarteirão do apartamento onde filmamos”, explicou Jenkins no último Festival de Toronto, onde o filme começou a ganhar prêmios. “Tarell e eu não nos conhecíamos, mas crescemos a um quarteirão de distância um do outro e estudamos na mesma escola.” A mesma frequentada por Chiron, o protagonista, que na primeira parte do tríptico em que o filme está dividido é chamado de Little (pequeno) porque é menor que o resto.

Chiron é um garoto frágil que começa o filme correndo diante dos 
bullys da sua classe e se esconde num prédio abandonado. Lá ele encontra John (Mahershala Ali), um traficante de crack que o leva para casa e se torna a figura paterna que lhe falta. Mas que não o educará nas leis da rua, e é aqui onde Moonlight rompe os primeiros preconceitos, e o ensinará a aceitar sua identidade; com a ajuda da namorada, Teresa (Janelle Monáe), que será a mãe doce que não espera por Chiron em casa e que finalmente foi interpretada por Naomie Harris.

“Não há uma única cena com ela que não tenha acontecido na vida real com Tarell ou comigo”, continua Jenkins. Harris interpreta uma mulher viciada em crack para esquecer frustrações pelas quais culpa o filho. “Foi libertador poder falar sobre tudo isso porque é muito difícil colocar sua própria merda na tela.”

Na segunda parte do filme, Chiron já é um adolescente, mas tem o mesmo olhar triste. John se foi, mas Teresa ainda está presente, e sua mãe piorou. Também aparecem os abusos na escola. Por sua timidez e seus silêncios, é acusado de homossexual. E ele mesmo duvida se é, especialmente quando está com o único amigo, Kevin, outro menino negro mais seguro de si, com quem tem sonhos românticos e que acaba beijando.

Este é o ponto em que 
Moonlight rompe definitivamente todos os estereótipos do cinema negro –sempre apoiado numa música tão pouco habitual nessas histórias, porque pouco se ouve rap– e entra em terrenos até agora só explorados por protagonistas brancos. Esse foi o principal trunfo para tentar financiar o filme, lembra Jenkins, que escreveu o seguinte numa apresentação para potenciais produtores: “Se o classificarmos de cinema gay negro ou cinema masculino urbano, a falta de filmes sobre a passagem à idade adulta com gente como Chiron e situados em lugares como Miami chama a atenção e é lamentável. Existe gente como nossos personagens”.

Assim conseguiu o apoio da produtora de Brad Pitt, embora tenha demorado a chegar. E deixa claro que nem seu filme nem o bom ano do cinema dirigido ou ou estrelado por afro-americanos são uma reação ao #OscarSoWhite
, movimento contra a pequena diversidade dos premiados surgido no ano passado. “Meu filme não tem nada a ver com Fences (Um Limite Entre Nós), que é diferente de Rainha de Katwe, e muito diferente de O Nascimento de uma Nação ou A 13ª Emenda”, explica Jenkins.

Com oito indicações no Oscar 2017, Moonlight é apontado por muitos críticos como o único filme capaz de tirar de La La Land - Cantando estações o principal prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos.




Irene Crespo para El País*
*As opiniões expressas são de responsabilidade da autora.