Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil

09 . julho . 2016



O novo documentário do diretor Belisario Franca,
Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil denuncia os pequenos fascismos do dia-a-dia, a lógica de transformação de pessoas em objetos, a plastificação das relações e o processo de “idiotização” de uma parcela da população, muitas vezes subjugada pela aristocracia branca, por conta da cor de sua pele e de sua classe social, através de uma única história.

Franca traz a luz parte da memória de mais de cinquenta crianças que foram submetidas a um regime de escravidão nas décadas de 30 e 40 por uma das mais influentes e tradicionais famílias cariocas e que, por muito tempo, viu-se fadada as sombras do esquecimento e da impunidade.

Essa história veio à tona de uma forma muito peculiar e inesperada. Um dia, o professor e historiador Sydney Aguilar dava uma aula sobre nazifascismo em uma escola comum no Rio de Janeiro e no momento em que foi explicar o significado do principal símbolo da Alemanha nazista, a suástica, foi surpreendido pelo relato de uma aluna. Segundo ela, tijolos com esse símbolo haviam sido encontrados em uma propriedade de sua família.

A curiosidade de Sydney fez com que ele investigasse a fundo o porquê da existência desses tijolos na propriedade, o que fez ele descobrir a ligação dos empresários e latifundiários dessa família com pensamentos eugenistas (integralistas e fascistas). Com um pouco mais de pesquisa e documentação, soube da ligação de um dos membros da família Rocha Miranda com a retirada de cinquenta meninos órfãos negros de um orfanato do Rio de Janeiro para leva-los a Campina do Monte Alegre, cidade do interior de São Paulo, onde os garotos permaneceram por dez anos em um processo de escravidão e isolamento na Fazenda Santa Albertina de Osvaldo Rocha Miranda. O grau de desumanidade e de objetificação dessas pessoas era tanto, que eram chamados por números. E esses números eram dados a partir de uma escala que era formada do menor e mais franzino para o maior e mais robusto.

Um dos maiores destaques de Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil, além do enredo, é com certeza a fotografia. Os relatos dos historiadores, sociólogos e das vítimas são intercalados com imagens em preto e branco que reconstroem o cenário dos garotos na fazenda. Conforme vão relatando suas lembranças, essas imagens vão surgindo. Além de agregar um belíssimo rigor estético ao filme, essa característica também é capaz de trazer um tom de dinamicidade e sensibilidade.

A primeira parte do filme é protagonizada pelos relatos de Aloísio Silva, “o menino 23”, um dos sobreviventes desse caso. Aloísio possui um tom de remorso e indignação em sua fala – o que é de se esperar. Uma simples pergunta realizada no início da entrevista: “ Como foi sua infância?” foi capaz de extrair a magnitude do que essa fase de sua história significou para o resto de sua vida. A princípio, não queria falar sobre. Relutava dizendo que lhe causaria dor lembrar de tais fatos. Mas após entender a importância de denúncia de seu pronunciamento, não só deu seu relato, mas também indicou outro companheiro ainda vivo que poderia, eventualmente, dar seu relato.

O depoimento de Argemiro Santos, surpreende. Diferentemente de Aloísio, não adquire um tom de indignação em suas falas. Monótono, se restringe a responder somente o que lhe é perguntado. Sempre com um sorriso no rosto, diz que procura esquecer tais lembranças e relata que teve uma vida muito dura também após sua fuga da fazenda. Morou na rua por muitos anos.  Ele chega a cantar novamente o hino do partido integralista, quando lhe é apresentado na entrevista sem parecer realmente saber o que aquilo representa. Argemiro é a personificação de como a ideologia fascista é capaz de nebular a percepção da realidade, produzindo efeitos contrários naqueles que deveriam sentir revolta.

Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil é um filme extremamente necessário, diria até que obrigatório. Pela importância e atualidade de seu conteúdo, assisti-lo torna-se imprescindível. Belisario Franca expõe uma tradição e uma cultura autoritária, uma ciência que perdeu seu lugar ético-político ao buscar uma imagem de uma neutralidade metafísica diante dos fatos e reafirmar teorias eugênicas. Abre nossos olhos e derruba o mito da democracia racial brasileira ao expor uma experiência reflexiva capaz de atingir até mesmo os fascistas- aqueles que ainda se recusam a perceber e aceitar o outro em sua totalidade. É objeto de resistência na medida que resgata e preserva a dolorosa história de escravidão e racismo em um país que insiste em jogar seu passado para debaixo do tapete.


 

Blog: Blah Cultural
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