Intocáveis consagra a atual boa fase do cinema francês

07 . setembro . 2012

O milagre da simplicidade gerando sofisticação. É o que poderia explicar o encanto de “Intocáveis” e decifrar um pouco o seu inesperado sucesso de público.
Com apenas dois atores e uma única situação dramática, o filme de Eric Toledano e Oliver Nakache produz uma multiplicidade de efeitos, que variam do riso à reflexão, do suspense à empatia com os personagens.
A partir de uma notícia de jornal, os autores foram montando essa dupla de seres desiguais, obrigados a conviver em absoluta intimidade: por causa de um acidente, um aristocrata francês riquíssimo e intelectualmente refinado (François Cluzet) torna-se paraplégico e precisa contratar alguém que cuide dele em tempo integral. Na falta de um candidato mais adequado, o escolhido é um ex-presidiário senegalês meio arrogante e sem qualquer habilitação profissional para a tarefa (Omar Sy). Mas naturalmente expansivo e de fácil comunicação, tendo a franqueza como principal qualidade.
Seria fácil imaginar que, na convivência, o rapaz adquirisse certo verniz cultural, numa rotina já vista em filmes como “Tarzan” ou “My Fair Lady”. Mas acontece justamente o oposto e o ranço passadista de certos hábitos da elite tornam-se evidentes no confronto com o gosto popular.
É muito divertida a passagem em que o personagem de Omar Sy vai desmontando as peças clássicas que o patrão lhe apresenta, na tentativa de catequizá-lo para a música clássica. Para ele, Bach devia ter composto tanto, só para conquistar mulheres, enquanto Mozart lhe faz lembrar um desenho de Tom e Jerry. Diante da falta de cerimônia, as máscaras sociais acabam desabando e tudo fica mais fácil. Mas essa mágica só foi possível com o talento de dois grandes atores: Cluzet (“Até a Eternidade”) e Omar Sy (“Micmacs – Um Plano Complicado”).
É possível uma interpretação de que o filme tenha desenvolvido uma metáfora sobre o relacionamento da França com as suas antigas colônia. Mas aí vale imaginar outra analogia, isto é, a de que o cinema francês esteja finalmente se libertando do peso há décadas exercido pela memória da nouvelle vague, com tudo o que ela teve de positivo e negativo.


(Por Luciano Ramos, do PipocaModerna)
* As opiniões expressas são de responsabilidade do autor.