Grandeza de 'Soundtrack' deve muito à atuação de Selton Mello

06 . julho . 2017

 

As primeiras cenas de "Soundtrack" mostram o fotógrafo Cris (Selton Mello) caminhando pelos corredores de um navio da Marinha. Mais do que curioso, ele parece ressabiado com o lugar estranho.

Também somos nós, os espectadores, que percebemos esse filme como um "lugar estranho", em sentidos múltiplos. "Soundtrack" acompanha um fotógrafo que viaja a uma estação polar para tirar "selfies" inspiradas em músicas pré-selecionadas.

Por que a decisão de Cris pelo isolamento? Que arte é essa? E, principalmente, de que vale a arte diante da eficácia da ciência? O fotógrafo chega ao local inóspito e leva na bagagem indagações que geram incômodo nos cientistas que o recebem.

Inseguro, Cris pouco sabe de si, alheamento que o perturba –talvez por isso tenha decidido fugir de tudo o que lhe dizia respeito. Por outro lado, sua arte –banal, à primeira vista– se revela contundente, poderosa.

No caso do fotógrafo, não há vida fora da arte, algo inconcebível para um cientista como o inglês Mark (Ralph Ineson), que estuda o aquecimento global. Para Mark, as respostas que a humanidade busca estão na natureza, e só nela.

Como no Ártico, em que um passo mal calculado põe tudo a perder, a dupla de diretores de codinome 300ml teria afundado o filme sem alguns cuidados, a começar pelo elenco.

No papel do pesquisador Cao, Seu Jorge reitera o carisma revelado em "Cidade de Deus" (2002), e Ineson, da série "Game of Thrones", exibe uma fleuma irresistível (o humor, aliás, não deixa que o longa soe pretensioso ou piegas, males que costumam acompanhar dramas existenciais).

Mas se "Soundtrack" é um grande filme, muito se deve a Selton. Os mistérios de Cris são explorados por ele em uma das melhores interpretações de sua carreira.

Há ainda a excelência técnica. Quando a política nos devolve à condição de vira-lata do mundo, não deixa de ser um alento notar que a tecnologia leva o cinema brasileiro a criar, com requinte, novas paisagens.

Graças à ciência, a arte respira em "Soundtrack".


Naief Haddad*
de São Paulo


*As opiniões são de responsabilidade do autor.