Favorito ao Oscar de filme estrangeiro, ‘Ida’ recorda os efeitos do nazismo e do comunismo na Polônia

05 . fevereiro . 2015

Em poucas décadas do século XX, a Polônia passou por uma série tão grande percalços e tragédias que parece inacreditável que um único filme consiga, em apenas 82 minutos, reunir tantas histórias. Dirigido por Pawel Pawlikowski, “Ida” recorda a invasão nazista durante a Segunda Guerra Mundial e o consequente extermínio de três milhões de judeus poloneses; retrata os anos do stalinismo em que inimigos do regime comunista eram perseguidos pelo governo de Varsóvia; e aponta a relevância que a Igreja Católica teria na reconstrução do país. Tudo isso é narrado sem afetação nem didatismo, a partir da vida de uma noviça polonesa dos anos 60 que, pouco antes de receber seus votos, descobre ser judia — uma trama que faz de “Ida” o grande favorito ao Oscar de filme em língua estrangeira.

“Ida” estreia no Brasil nesta quinta-feira, trazendo consigo quase 70 prêmios e mais uma série de indicações pendentes que o colocam como um dos melhores filmes do ano. Ele foi, por exemplo, o grande vencedor do último European Film Awards, superando obras como o turco “Sono de inverno” (Palma de Ouro em Cannes). E lidera todas as listas de apostas para o Oscar de produção estrangeira, podendo dar a estatueta pela primeira vez à Polônia, país com uma tradição de cineastas do porte de Krzysztof Kieslowski, Roman Polanski, Jerzy Skolimowski e Andrzej Wajda.

— Acho que uma das razões para gostarem de “Ida” é porque ele não lida com a História do jeito pomposo, às vezes até patético, que as escolas fazem. Há muitos filmes poloneses que tratam da História do país, mas geralmente eles são cheios de pathos, de uma retórica que mostra os poloneses como vítimas e nada mais — afirma o diretor Pawel Pawlikowski

Pawlikowski nasceu em Varsóvia há 57 anos, mas deixou o país na adolescência junto com sua família, com o objetivo de fugir do regime comunista. Ele descobriu o cinema na Inglaterra e se popularizou pelos filmes “Last resort” (2000) e “Meu amor de verão” (2004), ambos em inglês. “Ida” é justamente seu primeiro filme passado em sua terra natal e falado em sua língua de origem.

— Eu sempre me senti conectado com a Polônia, mas não simplesmente com o país. É uma conexão com uma era, com uma certa mentalidade antiga. Eu escrevi “Ida” pensando nos meus tempos de criança. Tenho na memória paisagens, rostos, músicas, o jazz — explica o diretor, que, pouco antes de rodar “Ida”, voltou a morar na Polônia. — Fazer o filme, para mim, foi um retorno a esse tempo. Não foi um período maravilhoso, mas tenho um sentimento nostálgico em relação àquela época.

A história de “Ida” gira em torno de Anna (Agata Trzebuchowska), órfã que é enviada pelo convento onde vive para conhecer sua tia, Wanda (Agata Kulesza). Esta última é uma juíza que anos antes trabalhou para condenar rebeldes anticomunista e que, sem nenhum cuidado, conta para Anna que ela se chama Ida e é judia; uma revelação que leva a protagonista a buscar o paradeiro da família e a questionar sua vocação.

Uma das características que mais chamam a atenção em “Ida” é sua fotografia, a cargo dos poloneses Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal. O fato de ser em preto e branco é apenas um detalhe para um filme em que os personagens ora aparecem em close, ora ocupam apenas o terço inferior dos quadros, deixando um espaço vago entre cabeças e teto. A câmera quase nunca se movimenta, e as imagens são mostradas numa proporção 4:3, mais quadrada do que o aspecto retangular das telas de cinema, emulando o formato dos filmes antigos ou da televisão tradicional.

— Eu quis fazer um filme mais abstrato, expressivo, que nos levasse à reflexão. Também gostei da ideia de não ter uma composição clássica, de as imagens parecerem um pouco aleatórias, assim como as lembranças — diz Pawlikowski. — É uma fotografia que serve para recriar a Polônia da minha memória. Quando filmava, comecei a achar que eu era uma banda de um homem só, alguém que carregava solitário essa Polônia na cabeça. Mas fui feliz em descobrir que, na Polônia, muitas pessoas compartilhavam as minhas memórias.


Por André Miranda*


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