Dólares de areia é um corpo estranho no aviltado circuito exibidor brasileiro

04 . maio . 2015

Dirigido pelo mexicano Israel Cárdenas e pela dominicana Laura Amelia Guzmán, é uma coprodução entre os dois países e trata justamente de trocas e entrechoques culturais, sociais, geracionais. No fundo, é também um filme sobre corpos estranhos: estranhos uns aos outros e estranhos a um público habituado ao padrão biotípico hollywoodiano (ou televisivo).

Há no centro de tudo o contraste entre o corpo jovem e escuro de Noeli (Yanet Mojica) e o corpo velho e alvo de Anne (Geraldine Chaplin), em algum lugar do litoral paradisíaco da República Dominicana.

Noeli sai (ou “fica”) com turistas em troca de um punhado de dólares, com a anuência do namorado tocador de bongô (Ricardo Ariel Toribio). Anne é uma setentona, avó e solitária, que se apaixona por Noeli. Uma senhora viajada, cosmopolita, poliglota, e uma garota pobre e iletrada, mal saída da adolescência, ainda em busca de seu lugar no mundo. Romance improvável, melancólico, sem futuro visível.

Geraldine Chaplin

Anne aparentemente é francesa, mas não dá para ter certeza, uma vez que Geraldine Chaplin fala com a mesma fluência inglês, francês e espanhol. E aqui cabe um parêntese sobre a atriz. Filha de Charles Chaplin e neta de Eugene O’Neill, Geraldine tem o cinema e o teatro no sangue, e as marcas da vida no rosto e na pele. Foi casada com o cineasta espanhol Carlos Saura e há décadas é companheira do diretor de fotografia chileno Patricio Castilla, acusado (injustamente, ao que parece) de ligação com o grupo terrorista basco ETA.

Em Dólares de areia Geraldine tem uma das atuações mais corajosas que se pode esperar de uma estrela. Numa época em que até mulheres com metade da sua idade se protegem sob camadas de botox, silicone e photoshop, ela se expõe em toda a sua magreza, rugas, estrias e olheiras. Nadando, dançando, fazendo amor, caindo de bêbada, ela, que nunca foi propriamente “bonita”, adquire uma aura de beleza nascida diretamente de sua inteligência e de sua integridade.

Já Noeli/Yanet, bonita e sensual desde a primeira aparição, leva um tempo para humanizar-se, ganhando aos poucos consistência psicológica e moral diante dos nossos olhos.

Desmontagem de clichês

Um dos méritos centrais de Dólares de areia é acenar com certos clichês (turismo sexual, amor não correspondido, manipulação de sentimentos) para depois frustrá-los, problematizá-los ou esvaziá-los. Mais importante que a “curva dramática”, tão valorizada nos roteiros convencionais, é o aprofundamento nos desejos e fragilidades de cada personagem: Anne, Noeli, o namorado.

A concentração nesses seres tão ricos e tão desiguais se dá mediante uma narrativa lacunar, que não se perde em detalhes inúteis e que deixa espaço para o espectador montar a história. Há também um artifício visual interessante: boa parte das cenas é filmada com luz quase estourada (ou, inversamente, escassa) e pouca profundidade de campo, de tal maneira que em torno dos personagens em foco o que se vê é pouco mais que um borrão colorido.

Evita-se assim o pitoresco de uma região ao mesmo tempo muito bela e muito pobre e a dispersão narrativa que isso acarreta, por exemplo, em tantos filmes brasileiros ambientados no litoral do nordeste.

 

Por José Geraldo Couto*
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