CRÍTICA: O Mestre dos Gênios

27 . outubro . 2016



O filme
O Mestre dos Gênios (Genius), baseado na biografia Max Perkins: Um Editor de Gênios (livro de 1978 que a Intrínseca publicou por aqui em 2014), se concentra no relacionamento entre o lendário editor e o escritor norte-americano Thomas Wolfe.

Perkins já tinha editado os primeiros grandes trabalhos de F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway quando recebeu em sua mesa, em 1928, o manuscrito de O Lost, do ainda desconhecido Thomas Wolfe – autor que segue obscuro no Brasil: a Iluminuras publicou duas coletâneas de contos seus, mas os romances que lhe fizeram fama nos EUA permanecem inéditos por aqui.

O filme caminha – com simplificações esperadas de Hollywood – pelo conturbado e intenso relacionamento entre os dois. A lenda de Perkins nos EUA se fez com dezenas de outros escritores de sucesso, mas sua história mais saborosa é justamente a com Wolfe: um homenzarrão de 1,98m que escrevia de pé, usando sua geladeira como escrivaninha, e entregava seus originais na Scribner’s em caixas e caixas de manuscritos ilegíveis e intermináveis de romances de mais de mil páginas.

Genius recebeu resenhas mistas na imprensa internacional, mas é tocante demais para quem gosta de literatura: a ideia romântica do editor preocupado com seus autores, cuidadoso com cada palavra e apaixonado pelo que faz assume forma física em Perkins. A ideia do escritor intenso, beberrão e genial, em Wolfe. O que pode dar errado?

As atuações de Colin Firth e Jude Law foram elogiadas pelo autor da biografia, o premiado jornalista A. Scott Berg, agora com 66 anos. A fotografia cinzenta é de Ben Davis, um habitué de Hollywood no século 21. E o roteiro de John Logan (dos mais recentes 007) pega citações literais do trabalho incrível de Berg, inclusive o bilhete que aparece no final do filme – olha, boa sorte nessa parte. A biografia teve acesso a milhares de cartas de Perkins a seus autores, e vice versa.

O Lost acabou virando Look Homeward, Angel, o primeiro livro de Wolfe, que o lançou ao estrelato. Depois, ele se dedicou à escritura de Of Time and The River (que título!). Vou copiar um trecho da biografia para sentir o gostinho (por volta de agosto de 1931 – quatro anos antes da publicação do segundo romance).

“Tom disse que lamentava destruir a crença de Perkins nele quase tanto temia decepcionar a si mesmo, mas que não “me importo a mínima se decepcionei o mundo dos escritores idiotas e chinfrins ou qualquer refugo literário composto de símios farejadores, oportunistas e furéticos”. A única coisa que importava a Wolfe agora era saber se lhe restavam fé e energia suficientes que justificassem sua persistência. Escreveu para Perkins que “ninguém pode agora me tirar coisa alguma que eu valorize, podem ter de volta sua notoriedade barata, nojenta e cotidiana para dá-la a outros tolos, porém, estou perfeitamente satisfeito por voltar à obscuridade em que passei quase trinta anos da minha vida sem grande dificuldade”. Ele não tinha desejo algum de se apegar aos seus “restos fedorentos de peixe podre” de um original, mas, escreveu a Perkins, se alguém quisesse saber quando teria um novo livro lançado, ele responderia sem se desculpar: “Quando eu terminar de escrevê-lo e descobrir alguém que queira publicá-lo”.

(…) Wolfe escreveu a Perkins dizendo que tinha dúvidas a respeito do livro, mas não estava desesperado.

‘Eu sentia que se minha vida e minha força se mantivessem [escreveu Wolfe], se minha vitalidade se mostrasse em cada página e se eu prosseguisse até o fim, o livro seria maravilhoso, mas tinha dúvidas de que a vida fosse longa o suficiente, achava que seriam necessários dez livros, que ele seria o mais longo já escrito. Então, em lugar de parcimônia, eu tinha abundância – tamanha abundância que minha mão ficou paralisada, meu cérebro, cansado – e, além disso, enquanto persisto, quero escrever sobre tudo e dizer tudo que possa ser dito sobre cada pormenor. A vasta bagagem dos meus anos de fome, meus prodígios de leitura, meu estoque infinito de lembranças, minhas centenas de cadernos de notas voltam para me afogar – às vezes sinto que devo abarcá-los e devorá-los, e novamente ser devorado por eles. Tive um livro imenso e quis dizer tudo ao mesmo tempo: não é possível.'”

Em 2014, em uma entrevista Berg disse o seguinte sobre Perkins:
“Maxwell Perkins é a pessoa mais importante, mas menos conhecida da literatura americana. Como editor, descobriu e revelou F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Thomas Wolfe e dezenas de outros que mudaram o curso da escrita americana. E, como ele foi o seu editor, permaneceu nos bastidores, acreditando que deveria ficar anônimo para não distrair as atenções ou depreciar a reputação dos seus autores. Quando eu estudava em Princeton – que frequentei em grande parte por causa do meu fascínio adolescente por Fitzgerald, que fora para lá -, descobri alguns papéis de Perkins e me convenci de que a história de sua vida era pelo menos tão interessante quanto a de qualquer um dos seus famosos escritores. Então, aos 19 anos, decidi pesquisar sua vida… e ‘solucionar a charada’.”

O livro me fez querer botar um chapéu na cabeça, largar tudo e virar um editor apaixonado.

Por exemplo, em uma carta para Marcia Davenport, sobre seu romance East Side, West Side, Perkins escreve:

“Generalizações de nada servem – forneça uma coisa específica e deixe que a ação fale por si (…).

Quando há gente falando, temos uma cena. É preciso interrompê-la com parágrafos explanatórios, mas encurte-os ao máximo. Diálogo é ação (…).

Você tem tendência a explicar demais. É preciso explicar, mas você costuma não confiar na sua própria narrativa e nos diálogos (…).

Você só precisa intensificar o que já está lá – e acho que o faria naturalmente na revisão. É basicamente uma questão de concisão e não muita, na verdade (…).

Não se pode conhecer um livro até chegar ao final, e então todo o resto precisa ser modificado para se adequar a ele.”

Não à toa, a carta é de 1947 – ano em que Perkins, editor experiente, morreu.

A indústria do livro mudou muito desde a Nova York dos anos 1920. Justamente por isso, voltar à ela com esses dois trabalhos é um alívio no meio do temporal.


Guiherme Sabota.