CRÍTICA: A COMUNIDADE

10 . outubro . 2016

Thomas Vinterberg é um dos poucos diretores que consegue ter o domínio da câmera e do filme. Ele utiliza vários ângulos diferenciados para ambientar o espectador na trama. É o que acontece em A Comunidade, o filme se passa na década de 70, onde um casal decide entrevistar pessoas para morar e dividir despesas em uma grande casa. 

No começo, a ausência de diálogos é fundamental porque o espectador precisa estar familiarizado com o ambiente que será posteriormente explorado ao máximo em diversos takes por Thomas. À medida que pertencemos a casa, o diretor nos deixa mais abertos para mergulharmos nos dilemas de cada um dos personagens. O conflito primordial é o desgaste inevitável de um relacionamento longo. Erik reluta em aceitar a ideia de Anna, mas após algumas entrevistas a comunidade está formada. 

Um filme com vários personagens poderia soar vazio para o espectador, mas nas mãos do diretor, todos possuem arcos completos e com uma simplicidade peculiar, somos familiarizados e conduzidos pelo olhar da filha adolescente do casal. Ela somente observa o cotidiano de várias pessoas diferentes que entraram em sua vida e como cada uma delas pode preencher aos poucos o vazio de seus pais. Em determinado momento, um personagem a indaga: "Você não fala?". Ela está imersa na introspecção, pois em uma possível metáfora, Thomas deixa a história da jovem para adiante, porque logo no começo, ela cumpre o papel do olhar dos espectadores, ainda tentando explorar e conhecer melhor os personagens. 

Um dos aspectos centrais nos filmes do diretor é o roteiro forte e carregado de significados. Os diálogos travados pelos personagens são de uma riqueza simplória e conduzidos de maneira próxima da realidade. Cada personagem possui sua importância para a trama. Essa importância é ressaltada pela aproximação e distanciamento que o diretor provoca no jogo constante de zoom in e out para estabelecer uma conexão imediata com as emoções do espectador. Com características marcantes e peculiares, cada um acrescenta força para a história e enriquece constantemente a relação estabelecida com o público. Os enquadramentos e ângulos explorados pelo diretor auxiliam em um crescente e servem de condutor para causar empatia.

A fotografia acompanha a fragilidade dos personagens, especialmente do casal protagonista e de sua filha. Nos momentos mais intensos de alegria o destaque são as cores quentes. Para enfatizar cada vez mais o distanciamento de Erik e Anna, cores mais frias. O problema é quando Thomas exagera na dramaticidade e utiliza a fotografia como muleta para alcançar as emoções dos personagens. Ele tem atores competentes que não precisam do auxilio demasiado da fotografia para transmitir emoção. Em determinado momento do roteiro, quando a personagem de Anna consegue se reerguer, a luz solar invade o quarto. A competência de Trine Dyrholm ao conduzir as emoções de Anna já basta e não teria a necessidade de enfatizar ainda mais os dilemas da personagem sempre com o auxilio da fotografia. Claro, a fotografia é fundamental para transmitir sentimentos, mas o exagero pode ofuscar o trabalho do ator e esses elementos precisam estar em sintonia. O mesmo acontece com o desfecho do arco da filha do casal. A trilha sonora entra para reforçar o aspecto que a criança tornou-se adolescente e aos poucos ficou mais madura. Acompanhamos essa transição, não precisava da trilha para focar ainda mais o tema. 

O que para alguns pode ser uma repetição do diretor ao juntar várias pessoas em uma casa, aspecto presente em alguns filmes anteriores, nos faz refletir sobre a autoria de Thomas Vinterberg. Se ao ler a sinopse do filme, o público encontrar os elementos: casa, um grupo com laços familiares ou de forte amizade e uma trama interessante... Não existe dúvida, o espectador terá mais um filme belo e realista de um autêntico contador de histórias.


Paula de Biasi