Crítica: O Clã

06 . janeiro . 2016

Filme que marcou a sessão de encerramento do Festival do Rio 2015, O Clã é a mais nova obra do diretor argentino Pablo Trapero, responsável por outros longa-metragens de destaque, como Mundo GruaElefante Branco. Baseado em uma história real, vemos aqui um retrato perturbador  de um verdadeiro psicopata, que abalou a história da Argentina. O Clã recebeu o Leão de Prata em Veneza por sua direção e certamente marca o espectador por sua perturbadora narrativa.

Nos cento e oito minutos de projeção acompanhamos Arquímedes Puccio (Guillermo Francella), que, juntamente de seus dois filhos e alguns amigos sequestram membros de famílias ricas a fim de conseguir quantias absurdas com o resgate. A tensão familiar, contudo, assume uma reta crescente, conforme os sequestrados, ao invés de serem liberados, são assassinados a sangue frio. Com uma narrativa que segue em dois tempos distintos – uma no momento da captura dos criminosos e outra no passado – assistimos o que levou à falha do esquema nefasto de Arquímedes, enquanto sua frieza rouba nossa atenção, criando uma tensão palpável no espectador.

O que chega a ser mais assustador é a forma analítica como o patriarca da família encara toda a situação à sua volta. Em ponto algum ele parece estar fora de controle e mesmo no momento de sua captura, seu pensamento calculista não o abandona. Dizendo sempre estar pensando no bem da família, Arquímedes é retratado com precisão pelo roteiro e direção de Pablo, se tornando desde já um marcante e perturbador vilão do cinema. A construção do ambiente familiar hipócrita à sua volta é também um dos pontos altos do longa, ao passo que a imagem da família perfeita procura ser transmitida em meio aos gritos abafados das vítimas. Cuidadoso em sua decupagem, Trapero não dá espaço para o espectador respirar e mesmo momentos aparentemente desconexos de todo o crime são entrelaçados com a maldade realizada pelo pai.

O que falta em humanidade, porém, em Arquímedes, sobra em seu filho, Alejandro (Peter Lanzani). Enxergamos em seu personagem uma verdadeira e crescente angústia que muito o diferencia de seu pai, garantindo uma maior pluralidade de todo esse quadro e permitindo uma construção coesa do clímax, que nada mais é que uma grande explosão de sentimentos reprimidos conforme vidas são despedaçadas. No fim enxergamos que todos (à exceção da mente por trás de tudo) são vítimas naquela situação e a narrativa procura deixar isso evidente ao explorar cuidadosamente cada um dos indivíduos presentes no texto. Ao mesmo tempo, essa abordagem acaba por dilatar a obra, criando uma lentidão em alguns momentos, algo que seria resolvido facilmente por meio de uma montagem mais dinâmica.

Esse deslize, porém, não consegue afastar nossa percepção positiva de O Clã, filme digno de ter encerrado mais uma edição do Festival do Rio. Temos aqui mais uma prova de qualidade do cinema argentino, que cada vez mais nos surpreende. Pablo acerta em cheio com uma retratação bastante humana de um homem desumano e das pessoas a seu redor. Um longa verdadeiramente assustador que abala as estruturas daqueles que o assistem.

O Clã (El Clan – Argentina/Espanha, 2015)
Direção: Pablo Trapero
Duração: 110 min.



Por Guilherme Coral*
website Plano Crítico

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