Crítica: Depois d’“A Juventude” o que é que fica?

28 . abril . 2016

Uma contemplação rica e emocional da experiência que a vida ensina, repleta de ternura, cinismo e piada. Cada cena vive de uma instabilidade intrigante, seja pelas interações entre as personagens ou simplesmente pela imagem. Impera um pathos irredutível, interligado com um estilo muito próprio, cheio de passividade, nostalgia, arrependimento pelas escolhas tomadas e, fundamentalmente, pelas que ficaram por tomar. As quase duas horas de “A Juventude” são tão imperfeitas como uma vida que chega ao fim, mas é precisamente isso que o torna verdadeiramente humano.

Uma cinematografia de mestre – cortesia do imaginário de Luca Bigazzi –, grandes performances – com Michael Caine, Harvey Keitel e Rachel Weisz no seu melhor – e uma banda sonora que é a indumentária perfeita para a imagem. Tudo o que se espera de Sorrentino está presente. Um dos seus pontos fortes é a nata capacidade para cruzar movimento e música, como se fosse um compositor fílmico, muito ao estilo de Fellini, e “A Juventude” revela alguma influência da melancolia surreal do clássico "Oito e Meio" (1963). No entanto, este não deixa de ser um realizador com uma visão extremamente singular, que já lhe valeu um BAFTA, com "A Grande Beleza" (2013), dois Jury Prize em Cannes, com "Il Divo" (2008) e "This Must Be The Place" (2011) e seis nomeações para a Palma de Ouro, a última delas este ano, com "A Juventude".

Trata-se este de um daqueles filmes que nos deixa um tanto atarantados, sem sabermos o que fazer a seguir. Não é um filme que revolucione a forma de contar cinema, mas, de alguma maneira, revoluciona perspetivas, e isso é suficiente para ser marcante e para nos apaixonar.

A ação decorre num hotel spa na Suíça, uma estrutura paradisíaca entre as montanhas, onde o maestro reformado Fred Ballinger (Caine) e o realizador ainda ativo Mick Boyle (Keitel) passam, como é todos os anos habitual, uns meses. O maestro encontra no local uma forma de retiro espiritual que gradualmente se vai afirmando um “retiro de vida”, enquanto o realizador, reunido com meia dúzia de jovens argumentistas, batalha para encontrar o final perfeito para o seu derradeiro filme, o seu “testamento fílmico”, como o próprio o caracteriza.

O spa é o local perfeito para conhecermos tudo sobre o passado de ambos, sobre a sua longa relação, sobre as raparigas com quem não foram para a cama, sobre os projetos que ainda podem (ou não) fazer e sobre os desalentos que, mesmo após tantos anos, teimam em apoquentá-los. Enquanto um se resigna à sua velhice apática, o outro continua a apostar nas suas ideiase a forma como ambos interagem, contando duas faces da mesma moeda, é simplesmente deliciosa.

A presença de Rachel Weisz complexifica o argumento, fazendo notar que as coisas não se complicam só na reta final, mostrando que durante todo o percurso há tropeções. Na verdade, depois de “Boyhood” é difícil encarar esse percurso como outra coisa que não um caminho cambaleante. O realizador Richard Linklater mostra que os tropeções começam desde muito cedo, e, por muito fantásticas que as coisas pareçam, fato é que “os elfos não existem”. Em “A Juventude”, contudo, o caso é ainda mais triste, pois já não se coloca a questão de os elfos serem ou não reais. A dificuldade está, antes, em nem sequer nos lembrarmos se alguma vez pensámos que eles pudessem existir.

 

Por Daniel Neves*
*As opiniões expressas são de responsabilidade do autor.