Crítica: Azul é a Cor Mais Quente

20 . dezembro . 2013

As atrizes Adèle Exarchopoulos (à esquerda) e Léa Seydoux

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Entrar no universo de Adèle pra mim parecia fácil. A ansiedade natural para conferir o mais recente vencedor da Palma de Ouro em Cannes estava unida ao fato de gostar da pegada naturalista que o diretor Abdellatif Kechiche lapidou em seus bem sucedidos filmes anteriores (em especial O Segredo do Grão [La Graine et le Mulet, 2007]), então seria uma sessão tranquila, entre amigos. Da tela, então, vejo saltar um gancho que me puxaria para dentro daquele universo durante as próximas 3 horas, passando com espantosa velocidade. Não fazia ideia de que o longa sobre o qual lia desde maio, com sinopse de realidade tão distante da minha, fosse se tornar tão íntimo e pessoal, pegando carona em sentimentos que não faço questão de expor ou rememorar com frequência. Mas tal qual Frances Ha (idem, 2013), descubro que 'a vida de Adèle' também é uma triste tradução da dificuldade de ser.

Enquanto Frances quer lidar com um amadurecimento tardio (através da dança) que pode vir ou não vir, não importa, Adèle quer descobrir e aprender. Ambas têm fome de leoa, e se jogam em cima de suas presas e interesses; ambas têm atitude corporal impecável e mostram com cada gota de suor do que são capazes. Admiro a garra de Frances, sua impávida condição de lutadora do bem, mas talvez a melancolia de Adéle se aproxime mais de mim (e de uma certa "antepassada" americana dela, a senhorita Enid de Mundo Cão [Ghost World, 2001]), me tocando de maneira indelével. Kechiche, por sua vez, descobriu na HQ Azul é a Cor Mais Quente a matéria prima necessária para o seu filme mais íntimo, cujas explosões tão intensas ocorrem todas dentro de uma única pessoa: Adèle.

Adèle tem apenas 17 anos, e nenhuma experiência. Nenhuma. Uma adolescente experimentando, como qualquer outra. Mas tem algo ali... uma inquietação, uma dúvida, uma vontade inexplicável e nem se sabe de quê. Um dia, uma menina na rua a faz virar a cabeça, literalmente. Adèle já tinha transado com um rapaz, mas será isso mesmo o que ela queria? E mais: será somente disso feita a vida? Nossas angústias emocionais passam todas por colocações amorosas, por colocações de gênero? Afinal, o que quer Adèle?

Não à toa o parágrafo anterior tem mais perguntas que respostas, porque é disso que se faz uma grande existência, de questionamentos. Adèle ainda não sabe, mas ela provavelmente terá uma jornada riquíssima pela frente. Mas... rico não quer dizer necessariamente tranquilo. Como toda grande jornada, a jovem não irá passar incólume; ao seu lado está Emma, a jovem de cabelos azuis. E passam-se os anos, e Kechiche engrandece sua obra mostrando que homossexualidade nunca foi seu tema principal. O que importa é a inadequação inerente a todos que têm sensibilidade aguçada e se atrevem a questionar o que há ao redor. A sociedade continua vendendo que o melhor é ser assim e assado, que o certo a se fazer é isso e não aquilo. Um dia essas regras serão de vez destroçadas, e são a alegria de Frances, a sinceridade de Enid e os olhos gulosos de Adèle os exemplos reais a serem seguidos.

De montagem espetacular e direção impressionante, Kechiche precisava de duas atrizes capazes para protagonizar seu filme; achou mais que isso. Se Lea Seydoux comprova sua meteórica ladeira acima na carreira com uma composição delicada e intimista, a novata Adèle Exarchopoulos mostra o que talvez seja a melhor estreia francesa desde Isabelle Adjani em A História de Adele H.  (L' Histoire d'Adèle H., 1975) - coincidência demais? Sua interpretação diz tudo em cada milimétrico detalhe impresso pela igualmente jovem atriz; interpreta com olhos, mãos, boca, com cada mecha de cabelo, com cada passo adiante; tudo é meticuloso ali. E tudo é necessariamente espetacular, cuidadoso e delicado. Muito do mérito do filme está na junção de seu trabalho com o de Kechiche, que sempre radiografou até os poros de seus personagens, e achou em Exarchopoulos poros pulsantes, unindo a ela uma vontade avassaladora de contar uma história através de cada mísero movimento de alguém.

Saí do cinema em completa conexão com aquela dor, aquela ânsia de existir livre, aqueles passos finais... e iniciais. Porque toda vida está eternamente iniciando, só os melhores conseguem sobreviver, e Adèle só nos mostrou seus dois primeiros capítulos.


Por Francisco Carbone, para Cineplayers*

*As opiniões são de responsabilidade do autor e não expressam necessariamente a opinião do CineCultura.